A Ética no Ambiente Profissional e o Elitismo do Conhecimento

    Compreender a ética dentro de um ambiente de trabalho ou profissional pode ser um processo complexo. É preciso antes de tudo entender o que é a ética. Antes de adentrar no assunto, é preciso salientar que a moral é intrinsicamente ligada a ética. Ética é um processo de conduta humana, que está ligada a estrutura moral do individuo ou de uma sociedade. Trata-se de entender se os hábitos, culturas, comportamentos, tudo aquilo que está ligado a aspectos psicológicos são moralmente aceitos, justos ou são condutas ou hábitos abomináveis. Este processo de moralidade tem camadas, desde a mais superior que pode ser a politica de uma sociedade até de um individuo. Havendo um debate moral sobre as questões do cotidiano e chegando a um bom senso do que é aceitável, do que é correto e do que não é, logo temos a Ética propriamente dita. 

    Exemplos temos aos montes. Podemos fazer uma relação entre nativos não aculturados com os povos ocidentais. Moralmente, viver com poucas roupas, praticar atos canibais e ter comportamento vistos pelos habitantes das cidades como primitivos ou animalescos; para estes nativos moralmente seriam comportamentos naturais, corretos dentro de um contexto social deles. O canibalismo não é feito de forma sádica ou hedonista. Existe um ritual entre Guerreiros, envolvendo Honra, Glória e Orgulho entre os combatentes. Para um derrotado nativo, este rogaria para que seus semelhantes o vinguem em batalha e que os deuses assim também o façam. Para os vitoriosos, consumir a carne humana não é pelo simples processo de humilhar o adversário. Existe um ritual espiritual para absorver as habilidades daqueles guerreiros, para comemorar o feito heroico. 

    O cristianismo também sofreu preconceitos nos primórdios de sua criação. O sacramento do Pão e do Vinho eram vistos pelos romanos antigos como hábitos canibais de consumir Carne e Sangue de alguém. Depois com o cristianismo implementado no Império Romano Tardio, compreendeu-se que o sacramento é um processo alegórico, metafórico, para compreender das dores e sofrimentos humanos. Todo o processo de costumes e filosofia por traz da religião é passado por Jesus de Nazaré, e no contexto certo e bem interpretado faz todo o sentido aquele ritual. Desta forma, podemos perceber que para os Antigos Romanos o cristianismo mostrava-se como uma religião imoral e até mesmo antiética. Ao passo que, depois da conversão de Constantino e oficialização feita por Teodósio, o sacramento cristão passou a ser interpretado de uma maneira moralista, conduzindo a seus seguidores a eticidade dentro desta nova sociedade. 

    Após este longo prólogo, devemos retomar a discussão do ambiente profissional. Analisemos este caso concreto: 

    "Sua empresa projetou um novo circuito integrado de calculadora científica com precisão de ponto flutuante de alta precisão para 18 dígitos significativos para todas as 250 funções matemáticas fornecidas. Depois de passar 1,5 anos em desenvolvimento e enviar 500 unidades de teste beta, a empresa descobre um problema com certos cálculos. A empresa já fabricou 5000 unidades prontas para venda. Para agilizar as operações matemáticas, certas tabelas de consulta de valores são usadas para ajudar na velocidade de execução de segundos para microssegundos. Essas tabelas contêm centenas de entradas inteiras. Durante o teste beta, você descobre que vários valores foram inseridos incorretamente antes de gravá-los no firmware dos CIs. Testes posteriores concluem que, devido à localização dos erros da tabela, os resultados afetam apenas a precisão do 15º ao 18º dígitos significativos. Devido aos custos irrecuperáveis no projeto, sua gerência quer liberar os chips."

    Vamos elencar 4 passos para resolver o problema: Reunir Informações, Identificar os Stakeholders, Identificar os Valores Éticos Relevantes e Determinar uma Ação de Resolução. 

    Para resolver o problema, devemos agir da maneira mais justa, menos danosa e que seja a mais responsável possível. É importante ressaltar que, mesmo tomando as melhores decisões, elas podem não serem o suficiente para resolver o problema como todo. Se a solução atender os pontos mais críticos, conduzindo com transparência e equidade, pode-se dizer que a resolução foi a mais ética possível. 

      Buscar as informações não significa ter simplesmente acesso aos dados, mas receber as informações sem distorções, não ser tomado pelas emoções, buscando agir da maneira mais racional possível. Recolher o máximo de informações, seja de logs de informações ou das pessoas envolvidas. Nada pode ser desprezado, e neste ponto o Sujeito da Solução deve se ater até mesmo de seu próprio ego e perceber o ponto de vista de outrem, o que chamamos de empatia. 

    Entender das partes interessadas ou stakeholders é ir além da opinião dos profissionais envolvidos, mas compreender o lado do cliente também, do que eles sabem, da percepção destes com relação ao problema em questão e aprender com estas pessoas também. Como lidar com essas pessoas? Reitero este ponto novamente, de que é preciso desinflar o ego, olhar o problema sob o ponto de vista de outras pessoas, até mesmo buscar ouvir mais e falar menos. Um desenvolvedor de software pode enxergar um programa de uma maneira ao qual ele opera adequadamente, ao passo que um usuário leigo terá dificuldades de opera-lo e consequentemente irá desistir de utilizar o software. É preciso, deste caso, imaginar como é a percepção, cognição e interação que este usuário terá com o devido programa. Assim também deve ser com qualquer processo profissional, ao qual se busca uma solução adequada, visando a eticidade. 

    Agora temos os valores éticos propriamente ditos em questão. Como tratar do problema a partir de então? Valores éticos devem ser revisados, de acordo com o passado, presente e o futuro. O que falhou? O por quê de ter falhado? O que deve ser feito neste momento? O que está causando de problemas no presente? Os valores éticos feridos tendem a serem estudados e passar por analises e reflexões, para evitar que tais falhas se repitam. Até mesmo os pontos acertados precisam ser revistos, para serem aprimorados. O que fazer para resolver? Quais decisões tomar? Ao final deste artigo, apresentarei uma posição pessoal quanto ao problema, o que não quer dizer que minha opinião seja de absoluta verdade. Pelo contrário: é aí que uma equipe deve expor também suas opiniões éticas sobre o assunto, para assim haver um comum acordo de solução do caso.

    Eis que finalmente determina-se uma ação. Ela pode ser imediata, ou mais longa. Existem três tipos de decisões a serem tomadas, mediante o tempo: curto, médio e longo prazo. Custos e escopos se envolvem nestas questões, mas variam de acordo com o tipo de decisão. Geralmente, quanto maior o escopo da solução, espera-se um aumento dos custos e um prazo maior para resolver. Gerenciar os escopos de soluções é o ideal, separando-os. Resoluções simples, que podem ser resolvidas rapidamente e que podem trazer satisfação aos clientes devem ser prioridade de solução. Problemas mais complexos, ou que envolvem eventos futuros até mesmo incertos devem ficar no que chamamos de Stand By, podendo ser resolvidas em meses ou até mesmo em anos. Porém, tais decisões longas jamais devem ser ignoradas, ou do mesmo modo tornar-se-ia antiético, até mesmo ser consideradas atos de negligência. 

    A solução mais apropriada para este autor é focar numa transparência com os envolvidos. Se houve vendas das calculadoras, a decisão mais acertada é devolve-las para a empresa, em um processo de Recall. Quem já as adquiriu terá a garantia de receber um produto revisado, corrigido e devidamente testado. Alias, prover testes exaustivos é que impedem tais falhas de acometerem qualquer produto de mercado. A revisão mais ética é conceber melhores testes com o produto, passando pelo crivo de especialistas daquele tipo de produto. Após os testes, efetuar uma validação do produto, tendo a plena certeza de que podem serem comercializados, é de suma importância para o negócio. É preciso verificar também, além da qualidade de software da calculadora, a qualidade de hardware também. 

    Não cabe a nós julgar os motivos destas falhas terem acontecido. Se houve omissão, ingerência, ou outros fatores; estes pontos serão devidamente verificados quando for analisado os recursos humanos envolvidos. Priorizar a correção, prover honestidade com os clientes, de que ao invés de resolver partes do problema em um possível recall de produto, resolver o máximo de problemas existentes, em prol da garantia de qualidade. Conceber um software ou produto perfeito é praticamente impossível, mas dispor um produto no mercado no qual foi exaustivamente testado e validado, isso é que agregará valor ao produto/marca com relação aos clientes, colaboradores e outros envolvidos. Lembre-se: o cliente sempre tem razão e tem de ser exigente. 

    Ou sejamos exigentes, ou o mercado nos atenderá com produtos de baixa qualidade, menosprezando seus clientes. Em tempos de inflação, há uma redução ou diluição dos produtos, mas evita-se ao máxima na queda de qualidade. Ninguém quer ser uma marca pária no mercado internacional. Valores como sustentabilidade e consciência social também são analisados como princípios éticos, mas discutiremos sobre estas questões em outra ocasião.

    Bom, agora poderei discorrer sobre o Elitismo do Conhecimento. O célebre autor C.S. Lewis (de As Crônicas de Nárnia), mencionava em seus textos o termo Carientocracia. Seria resumidamente pessoas que adquirem muito conhecimento, tornando-se arrogantes ao ponto de desprezar aqueles que não possuem o mesmo nível de conhecimento. Todavia, diga-se de passagem, a arrogância de pensar saber de tudo só por ter excesso de conhecimento tornam estas pessoas senhores de sua própria ignorância. Se ignoram outros assuntos ou informações, se desprezam outros conhecimentos que julgam ser inapropriados ou supostamente inferiores, automaticamente elas se tornam tão inferiores quanto aquelas pessoas que desprezam. Cegar-se do mundo ao redor, julgando ter a razão absoluta é o mesmo que doutrinar-se fanaticamente em uma religião, tornando-se escravo da própria crença. Quem realmente for sábio e perceber tal individuo de fora desta redoma de arrogância, perceberá o quão triste e escravizada é aquela pessoa. 

    Não é o conhecimento que liberta, mas a sabedoria. Saber não é simplesmente refletir e filosofar sobre o assunto, se aprofundar cada vez mais. Saber também é colocar no rol de suas pesquisas de que mesmo sabendo, algo novo pode surgir e percebemos que nada sabemos. Devemos estar receptivos por novas informações, novas interações. Aos tolos que se julgam os Lordes do Conhecimento, o Medo do Novo causa pavor, por arriscar destruir as bases da arrogância e faze-lo perder seu posto no trono dos Reis Carientocratas. 

    Mostro a vocês como achamos que sabemos, mas não sabemos nada. E sim, devemos ter o coração aberto e receptivo para novas ideias. É somente assim que o conhecimento torna-se sabedoria. Existe o que chamamos de "Efeito Mandela", de que Sócrates disse a frase "Só sei que nada sei". Pois bem, ele Jamais disse isso. Platão, seu sucessor, foi quem escreveu sobre Sócrates. O filósofo nunca escreveu uma virgula, e tudo que sabemos sobre ele foi graças aos escritos de Platão. O mais próximo que temos desta frase é isto:

"Porque eu, na verdade, não sei nada, como dizer?"

(Platão, Apologia de Sócrates, 21d)

    Outro autor que chegou "perto" foi Cícero, que disse as seguintes frases:

"A ignorância é a maior enfermidade do gênero humano."

"Não me envergonho de confessar aquilo que ignoro."

    Sendo assim, somos eternos aprendizes, ao mesmo tempos que podemos nos tornar mestres. Faz parte do homem sábio e tutor reconhecer suas ignorâncias, entender dos seus limites e capacidades. O tutor não deve mentir para seus alunos sobre uma capacidade que não tem. Do contrário, ele criará novos Carientocratas, que logo estarão em suas redomas acreditando que governam o mundo, um mundo que, aos olhos dos sábios, é um lugar cheio de surpresas e infinito em conhecimentos. 


    


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